Cortar o cabelo

Cortar o cabelo sempre foi uma coisa simples.

Chegamos, cumprimentamos, sentamo-nos e a conversa começa a fluir. O António é o barbeiro que se adapta naturalmente ao cliente. Futebol, políticos todos iguais, preço dos combustíveis, e muitos outros, são tudo temas em que nunca lhe falta conteúdo, consoante a contraparte.

Corto aqui o cabelo há mais de 40 anos e sempre assim foi, com a águia embalsamada a observar os cortes. Deixou de haver calendários sugestivos; passou a haver um papagaio que atira piropos a quem passa.

Aqui há tempos, teve uns problemas de saúde e esteve, naturalmente, sem trabalhar. Lá tive de me dirigir a um local de corte alternativo, num centro comercial próximo.

— Então, como é que vai ser? — perguntam-me.

— Como é que vai ser o quê? — pergunto de volta.

— Como é que quer o corte?

Que pergunta. Sei lá como é que quero o corte! Nunca o António me perguntou tal coisa. Sento-me e ele corta enquanto falamos. Simples.

Da única vez que sugeri que queria cortar mais curto, recebi de volta um:

— Então vais começar a trabalhar, não vais aparecer de cabelo rapado.

E pronto, ficou como ele quis.

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