quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Trabalho, IA e impostos


Uma boa fatia dos impostos que o Estado arrecada é baseada no trabalho das pessoas.

Será que os visionários que por aí andam a apregoar a substituição do trabalho por IA e robôs têm alguma ideia de como se irá arrecadar, depois, o valor correspondente?


Fotografia: Ross Madden / National Archives and Records Administration, domínio público

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Começar a vida sem começar do zero (II)

Voltando ao tema, vale a pena perceber a dimensão e o possível impacto da ideia.

Vamos imaginar que o programa abrangeria 10.000 crianças por ano.

No primeiro ano, custaria 9 milhões de euros. No segundo, 18 milhões. E assim sucessivamente, até que, ao fim de 18 anos, o Estado estaria a gastar cerca de 162 milhões de euros por ano para manter o sistema.

É muito dinheiro?  Vendo assim, sem termo de comparação, é. Mas colocado noutra escala, representa cerca de 0,12% da despesa pública.

Não sei se 75 euros seriam o valor certo, se deveriam ser 10.000 crianças e nem sequer qual seria a melhor forma de definir quem teria direito.

E não pretendo que seja uma solução mágica para resolver o problema da pobreza.

Mas a questão não é essa. A questão é que é possível pensar em alternativas.

Em vez de responder apenas a um problema que já existe, é possível tentar antecipar um problema futuro. Em vez de esperar pelos 18 anos para perguntar o que podemos fazer por aquela pessoa, é possível agir no dia em que nasce.

Talvez não seja a solução. Mas é uma possibilidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Todos querem marcar


Um dia destes, um dos meus filhos disse que já não jogava mais à bola porque queria ser sempre ele a chutar e não queria ir à baliza defender os remates dos outros.

Estava aqui a pensar se alguém do Governo teria disponibilidade para falar com ele, a ver se conseguimos resolver isto.

Começar a vida sem começar do zero (I)

Há problemas para os quais temos tendência a procurar sempre as mesmas soluções.

Quando falamos de pobreza, pensamos em apoios sociais. Quando falamos de crianças, pensamos em abonos. Quando falamos de desigualdade, pensamos em redistribuição de rendimento.

E faz sentido.

Mas, e se tentássemos mais alguma coisa (e diferente, já agora)?

Imaginemos que, no dia em que nasce uma criança numa família pobre, o Estado abre uma conta em seu nome.

Não para os pais nem para gastar agora. Não é um abono de família mas antes uma conta que acompanha a sua vida até aos 18 anos.

Imaginemos que o Estado coloca nessa conta 75 euros por mês. O dinheiro é investido e fica lá, a crescer, até à maioridade.

Não parece uma fortuna mas, ao fim de 18 anos, mesmo assumindo uma rentabilidade média de apenas 1%, aquela criança teria agora cerca de 17.700 euros.

Vendo assim, mudamos a perspectiva.

Aos 18 anos, essa pessoa poderia ter dinheiro para estudar, mudar de cidade, iniciar um negócio ou simplesmente ter uma almofada que muitas pessoas dão como adquirida quando crescem numa família com alguma capacidade financeira.

Não se trata de tornar alguém rico.

Trata-se de não começar do zero.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Casas com riscos


Ouvem-se com frequência os comentadores e opinadores a afirmar que o preço inflacionado das casas é um risco muito elevado para os bancos.

É verdade, claro.

Mas e para as pessoas que não conseguem comprar nem alugar uma casa para viver? Ninguém considera o risco para estas?

É que, nestes casos, não há compensação posterior que anule viver na rua ou num quarto sem condições.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Em Arouca, a família


Estive em Arouca há uns dias para um encontro de família.

A “origem” da família está nos meus bisavós e deles descendem inúmeros ramos.

Levei a minha família, que é um raminho saído de outro maior. A minha mãe representa um grande ramo, considerada e ouvida por todos com respeito e amizade. É um dos momentos em que a felicidade lhe inunda a cara.

Em Arouca — e sem ser aí — fomos, como sempre, uma família ruidosa e alegre, com uns arrufos passageiros pelo meio. Mesmo com um primo novo que ainda não conhecíamos, depressa nos sentimos acarinhados e contagiados por uma boa disposição genuína que faz estes momentos perdurar como boas memórias.

Deve ser isto a que chamam família.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Vacinas. Ou falta delas

Lendo as notícias, houve um surto de sarampo na Pensilvânia, havendo já alguns mortos. O surto ocorreu numa zona onde a taxa de vacinação é muito baixa e a ocorrência foi, em grande maioria, em pessoas não vacinadas. Em setembro, menos de 1% dos casos identificados tinham ocorrido em pessoas adequadamente vacinadas.

Todos sabemos que correlação não significa causa mas deixo abaixo um gráfico que mostra a evolução da vacinação e da mortalidade por sarampo.


Mas ainda há quem insista...



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Cortar o cabelo

Cortar o cabelo sempre foi uma coisa simples.

Chegamos, cumprimentamos, sentamo-nos e a conversa começa a fluir. O António é o barbeiro que se adapta naturalmente ao cliente. Futebol, políticos todos iguais, preço dos combustíveis, e muitos outros, são tudo temas em que nunca lhe falta conteúdo, consoante a contraparte.

Corto aqui o cabelo há mais de 40 anos e sempre assim foi, com a águia embalsamada a observar os cortes. Deixou de haver calendários sugestivos; passou a haver um papagaio que atira piropos a quem passa.

Aqui há tempos, teve uns problemas de saúde e esteve, naturalmente, sem trabalhar. Lá tive de me dirigir a um local de corte alternativo, num centro comercial próximo.

- Então, como é que vai ser? - perguntam-me.

- Como é que vai ser o quê? - pergunto de volta.

- Como é que quer o corte?

Que pergunta. Sei lá como é que quero o corte! Nunca o António me perguntou tal coisa. Sento-me e ele corta enquanto falamos. Simples.

Da única vez que sugeri que queria cortar mais curto, recebi de volta um:

- Então vais começar a trabalhar, não vais aparecer de cabelo rapado.

E pronto, ficou como ele quis.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Porque gosto do Fernando Mamede


Gosto do Fernando Mamede. Foi um grande atleta.

Foi recordista nacional dos 800 aos 10.000 metros. Ganhou dezenas de títulos individuais e por equipas no corta-mato, correu por Portugal em inúmeras competições e, em 1984, estabeleceu o recorde mundial dos 10.000 metros.

Durante cinco anos, ninguém no mundo correu a distância mais depressa.

Mas, há dias, ouvia alguém falar dele lembrando apenas a corrida que não ganhou. Chegou a criar-se uma expressão para isso: a “síndrome de Fernando Mamede”.

É curiosa esta necessidade de transformar um atleta extraordinário num exemplo de fracasso. Especialmente curioso num país em que a cultura e os méritos desportivos são dos piores da Europa.

Para colocar as coisas em perspectiva, passaram mais de 40 anos e o tempo que Mamede estabeleceu em 1984 continua a ser a segunda melhor marca portuguesa de sempre nos 10.000 metros — por pouco mais de um segundo.

Não ganhou tudo e falhou em momentos importantes. Mas foi um dos melhores atletas portugueses de sempre e chegou a ser o melhor do mundo numa das provas mais exigentes do atletismo.

É assim uma coisa um bocadinho portuguesa, lembrar alguém apenas pelo que não conseguiu e não por tudo o que fez.


nota: imagem gerada por IA